Habilidades de cuidadora

Familiar-cuidador
Florianopolis – SC

Ser cuidadora de doente de Alzheimer requer muitas habilidades. Quando aprendemos a nos identificar com os sentimentos da pessoa, passa a haver uma troca, até mesmo certa cumplicidade, mesmo faltando a comunicação verbal. Como cuidadora de minha mãe de 83 anos, com Alzheimer há cerca de oito anos e totalmente dependente há cinco anos, relato aqui parte de minha experiência sobre a fase atual.

Aprendi a ler em sua fisionomia, principalmente através do olhar, como ela está se sentindo: contente, triste, harmoniosa, agitada, segura, insegura. Procuro fazer com que ela se sinta amada, respeitada, melhorando a sua autoestima, dizendo: você é muito bonita, muito querida, eu gosto muito de você. Procuro fazer atividades com ela: cantos, "monólogos" sobre assuntos do passado, música, orações, tudo que traga um pouco dos conhecimentos dela. Aos poucos, ela repete algumas das palavras que ouviu. Mostro como está o dia: ensolarado, chuvoso, frio, calor, vento. Faço perguntas que requeiram respostas objetivas e procuro conversar bastante, mesmo que ela só fique ouvindo. Respeito os seus momentos de quietude.

Procuro ficar ao máximo à vista dela, pois isso aumenta sua segurança. Sempre a preparo para o quer vai ser feito naquele momento: alimentação, banho, troca de roupas, mudança de lugar etc. Também a informo com antecedência se vai chegar alguém: ministro da eucaristia, médico, parentes de longe. Aprendi a ter paciência, paciência e paciência. Mantenho o bom-humor ao lidar com ela e adoto uma série de "jeitinhos” para o dia a dia.

Com relação à fase atual, tenho um profundo respeito pelo que ela foi: batalhadora, muito querida, perfeccionista em tudo que fazia. Sinto muita tristeza ao vê-la tão limitada, principalmente quando percebo que não está bem e não consegue expressar seus sentimentos. Apesar de todas essas adversidades, eu me sinto feliz por ter o privilégio de ficar por mais tempo em sua companhia, compartilhando seus altos e baixos, suas tristezas e alegrias, suas ansiedades e frustrações. Minha maior felicidade é quando me chama pelo nome, o que raramente acontece, quando sorri e até dá gargalhadas. Isso é muito gratificante para mim.