Solidariedade familiar

Familiar-cuidador
Porto Alegre - RS

Tenho 73 anos e cuidei do meu marido durante seis anos. Seus problemas começaram aos 70 anos, relacionados à lembrança de fatos e datas e a dificuldades com o sono e a alimentação. Durante um ano, fizemos uma série de testes e, finalmente, a Doença de Alzheimer foi mencionada. O neurologista, ao nos contar o provável diagnóstico, nos preparou para o que viria e para que pudéssemos dar o melhor tratamento ao meu marido.

Decidimos tomar conta dele em nossa casa, sendo eu eleita a principal cuidadora. Os demais da família continuaram seus afazeres, entretanto, cuidavam para que eu tivesse meus momentos de lazer. Reorganizamos a casa, adaptamos o banheiro para que ele tivesse maior segurança, distribuímos fotos e quadros em todos os lugares. Mais tarde, alugamos cama hospitalar, cadeira de banho e outros equipamentos que trouxessem mais segurança e que também facilitassem nossa vida.

Nunca o deixamos sozinho. Procurávamos realizar com ele as atividades que mais gostava como: caminhadas, dança, ouvir música, jogos e até mesmo assistir aos programas de televisão. Mais tarde, começamos a realizar exercícios fisioterápicos como havíamos sido instruídos.

Nunca me senti deprimida ou sozinha, porque minha família sempre esteve ao meu lado, ajudando em tudo o que era possível. Tinha meu tempo de lazer: visitava amigos, via filmes e procurava estar perto para algum caso de emergência. Quando estava muito cansada, saia um pouco para que ele não percebesse. Esta é uma recomendação que faço a todos os cuidadores: quando cansados, saiam para algum lugar, descansem e depois voltem com energias renovadas.

Nunca fizemos nada à força, nada que o contrariasse. Sempre procuramos envolvê-lo com histórias. Quando não queria tomar banho, por exemplo, o incentivávamos, falando na escolha da roupa, em um passeio ou na chegada dos filhos.

Certo dia, logo depois de sair do chuveiro, ele esqueceu que tinha tomado banho. Estava vestido, penteado, perfumado. Mas insistiu que precisava tomar banho. Atendi ao seu pedido, tirei de novo toda a roupa e lá fomos nós para o chuveiro outra vez. Não custava nada. Sempre cuidamos para que não se sentisse ridicularizado e não percebesse que estava falando bobagens.

Durante estes três últimos anos, eu precisei da ajuda de um cuidador profissional, porque meu marido estava muito rígido e muito pesado. Mas nós sempre estávamos a seu lado, mostrando o quanto o amávamos e o quanto ele ainda era importante para toda a família.

Eu sei que consegui superar tudo porque minha família e meus amigos me deram ajuda, solidariedade e amor. E quando meu marido morreu, eu sabia que tanto eu quanto minha família havíamos feito o melhor.

*Coordenadora do Grupo de Apoio em Porto Alegre